O ADVINHÃO

Valmir Simões

 

 

Quem em Itiúba não conheceu o saudoso Hélio Simões. Ficou cego ainda moço, mas nunca se queixava da vida e tinha todo a atenção dos seus familiares. Era uma pessoa muito querida dos meus pais, tanto que, pela consideração, ele batizou o meu irmão Deusdeth.

Eu tinha em torno de 15 anos de idade e, por morar bem próximo da sua residência, passava alguns momentos em frente à sua casa e presenciei coisas interessantes.

Ele tinha sempre um amigo inseparável: o "Boca" filho de João Martins (sempre o conheci pelo apelido e acredito que poucas pessoas sabiam seu verdadeiro nome).

Como a estação ferroviária ficava próxima da sua residência, o Hélio percebia, pela audição, todo o movimento dos trens chegando e partindo. Os maquinistas caprichavam no apito. Sentado na sala ou na calçada em frente a sua residência, ele sempre perguntava ao "Boca" qual era a máquina que estava apitando e o "Boca" informava:

- O apito é da máquina 308, 410, 510. Conforme a máquina que chegava.

Tudo ia sendo gravado pelo Hélio que tinha uma memória fenomenal. Daí em diante ele começou a apostar com quem não conhecia o esquema e muitas vezes o vi ganhar cervejas às custas daqueles que não entendiam porque ele, cego, sabia identificar o número da locomotiva que chegava.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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