Falas Esquecidas

Herbert Pinto de Carvalho

 

 

 

 

Uma frase humorística pode ficar gravada na lembrança e tomar o rumo das coisas que ficam como conceitos culturais. O tempo não mudou nem solapou o pouco que resta do riso instantâneo.

Entretanto, o que adianta é que tudo está repetido nos chamados ditados populares. Podem ser fatos importantes para registrar o humor ou qualquer outro que se alastra e desaparece sem deixar vestígios.

Nossa Itiúba, nos idos de 1950, tinha um cozinheiro de nome Ademar de Tereza, que era considerado como um dos melhores da região, numa época em que apenas mulheres exerciam essa profissão. Quando era chamado para trabalhar nas casas das pessoas que ofereciam almoços para as autoridades e visitantes ele aceitava com uma condição: “na minha área de trabalho não quero nenhuma mulher”. Daí, não se sabe se por vingança, elas contavam que ele era medroso e ilustravam assim: - Não vou mais na casa de Tereza (sua mãe de criação). Lá tem lagartixa na parede. É uma bicha nojenta e mole que se bole toda. E ele respondia: - Não duvide-dê-ó-dó, mas mulher tem arte do cão. Comigo é como chaco-chaco-léco-léco-tei-tei-ra quando ferve a água sai fumaça por todos os lados...

Outra figura que fazia parte do folclore da cidade era um músico que tomava suas pingas e quando regressava à noite para casa e encontrava vizinhas ou parentes da mulher numa conversa animada, sentava e esperava. Quando demorava muito, ele levantava e dizia: - mulher tem pena das visitas que estão com sono e querem ir dormir. Assim, “gentilmente” convencia as amigas da patroa a voltar para seus lares.

Havia um vendedor de legumes que mercava de porta a porta com o seguinte convencimento: - Olha o pimentão lindo e o tomate “japonê” que veio de longe e “talis” coisas e completava: “comigo é no remelexo xe-ó-xó e chamego – gue-ó-gó. Ele também tinha uma outra faceta que corria à boca pequena pela cidade: quando bebia perdia a cabeça e entregava o “ouro” para o primeiro bonitão que aparecesse na sua frente.

O tempo é nosso amigo e também dos itiubenses que comentam despretensiosamente esses ditos populares, como esse: “relógio que atrasa comeu farinha sem rapadura”. É mais uma razão para respeitarmos o folclore com suas frases antológicas a eles atribuídas, sem esquecer que o Vicente oferecia as mulheres dos outros em troca de um prato de comida.


 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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