ESCURIDÃO NA FAZENDA DO ESTADO II

Ivan de Carvalho

 

 

Eu ia escrever aquela história sobre o apagão na Fazenda do Estado, mas meu primo Valmir Simões foi mais rápido. Portanto, acrescento apenas alguns detalhes que, por desconhecimento ou economia de palavras ele não registrou.


A excursão ao “Estado” foi feita, além de Valmir e sua tia Maria Simões (Binha), por mim e meus três irmãos, Maurício, César e Taciano. Tudo bem na ida, mas, na volta, Binha e meus irmãos menores, César e Taciano, tomaram uma boa dianteira, enquanto Maurício, eu e o primo Valmir ficamos mais atrás, fora das vistas de Binha, tia dele e prima nossa, mas adulta, ao contrário de nós outros.

Ficar mais atrás foi o bastante para Valmir e Maurício promoverem o quebra-quebra das 42 lâmpadas. Eu tentei bancar o anjo da guarda, advertindo para o erro, mas eles não deram a mínima. E foi terrível – Valmir era um bom atirador de badogue, Maurício melhor ainda. Alvo parado, em postes baixos, não erravam uma badogada.

Já perto do portão da fazenda, à altura da casa de Teodoro Cabral, aproximadamente, passou na contramão uma moça chamada Esther, nossa conhecida e moradora da fazenda.

Mas o que é isso? – resmungou e seguiu. Foi ela. Não juro, porque na Bíblia está escrito que não se deve jurar, mas não tem outra explicação para a cobrança das lâmpadas no dia seguinte. Eu estava atento e vi que ninguém mais vira.

Ela deu com a língua nos dentes.

Detalhe importante: se o Valmir ficou um ano sem ir ao cinema, parece que o pai dele, Zé Simões e o nosso, João Mutti, além de dividirem o prejuízo, combinaram o castigo. Maurício também foi condenado a um ano sem ir ao cinema. Se o Bertinho, dono do cinema, soubesse, não ia ficar feliz. Ele não quebrou nenhuma lâmpada. Nem da nossa excursão participou.

Porque estava sendo castigado, afinal?

Um detalhe. Maurício não cumpriu os 12 meses de castigo que Valmir amargou. Cumpriu dez. Então, anunciou-se, com muito estardalhaço, o “magistral” filme Sargento York e foram tantas as lágrimas que, à noite, ele as secou diante da tela.

Ainda hoje ele tem uma certa gratidão por esse tal sargento.

 

SOBRE A FAZENDA DO ESTADO LEIA:
- A FAZENDA DO ESTADO I (pág.76) - Fernando P. de Carvalho
- A FAZENDA DO ESTADO II (pág.77) - Ivan de Carvalho
- A ESCURIDÃO NA FAZENDA DO ESTADO (89) - Valmir Simões
- ANTÔNIO MOTTA (pág.145) - Humberto Pinto de Carvalho

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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