VALMIR SIMÕES DE CARVALHO III

Egnaldo Paixão

 

 

 

 

 

AMIGO, ATÉ AMANHÃ...


Na manhã de 24 de julho, fui surpreendido com a notícia do falecimento de VALMIR SIMÕES DE CARVALHO. A informação me veio via telefone, inesperada, direta. Quatro meses antes eu tinha estado com ele em Salvador, no Quartel de Amaralina, quando a Filarmônica 4 de janeiro, de Itiúba, ali fez apresentação beneficente. Valmir, como sempre, simpático, aberto, alegre, inteligente.

O curso da vida tem esses contornos, esses atalhos que surpreendem e nos deixam tontos. Às vezes, até fugimos da lógica, não aceitando, de logo, esses acontecimentos, tão fora dos planos do cotidiano.

A minha primeira reação ante a notícia, foi dizer a quem me telefonou: "Valmir Simões, de Itiúba? não, não pode ser. Pode ser outro Valmir. Não aquele, que há quatro dias atrás, havia me mandado mensagem pelo computador. Aquele que, rara era a semana que passava sem mandar-me, e a tantos amigos, palavras de otimismo, notícias de acontecimentos políticos, piadas, lugares exóticos. O Valmir morto sem tempo de despedidas, foi outro, não aquele que, como ninguém, amava sua pequena Itiúba, e sobre ela e para ela escreveu memoráveis artigos publicados no site do Fernando, outro velho amigo dos nossos tempos."

Com esses pensamentos, fiquei à princípio, sem assimilar a notícia, e só alguns minutos depois é que me rolaram algumas lágrimas silênciosas e contidas.

Afinal, creio que, dos amigos de ontem, eu tenha sido dos mais próximos de Valmir. Primeiro, porque logo nos primeiros verdes anos de minha vida, fui trabalhar, aos sábados, no armazém do pai dele, José Simões. Valmir e eu tínhamos quase a mesma idade, onze anos ele, talvez, doze, eu. Nos irmanamos. Trabalhávamos duro despachando a freguesia e volta e meia, descia goela abaixo uma "bicada", (casca de pau com cachaça), escondido do pai dele, mas que também gostava. À noite, íamos juntos ao Cine Itiúba, ver de preferências belas atrizes americanas... por um tempo, estudamos na mesma sala de aula da Escola Góis Calmon. E assim fomos crescendo.

Chegou o tempo de nossa juventude. Mourinha, Pedrinho Capitão, Genésio, Fernando Carvalho (o grande galã de Itiúba), Bilau, quantos amigos! Quantas serenatas! quantas namoradas!

E veio a época do trem de passageiros. Religiosamente, aos domingos tínhamos que ir à Estação, à noite, ver o trem passar de Bonfim à Salvador. Valmir, era sempre o líder do grupo, aquele que criava situações para alegria de todos. Onde Valmir estava, ninguém tinha a ousadia de ficar triste. Não podia. Não tinha como. Valmir tinha um jeito, tinha uma forma só dele de alegrar o ambiente, de arrancar risos mesmo de quem estivesse ali com vontade de chorar.

Depois, cada um tomou seu rumo na vida. Quase perdi o contato com meu dileto amigo e irmão, durante mais de quarenta anos. Fui reencontrá-lo há pouco mais de três, em Itiúba, numa alvorava em louvor à Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de nossa terra. Que alegria, para os dois! Valmir, o mesmo cara comunicativo, bonachão, amigo, alegre, simpático.

Posso concluir estas palavras, dizendo que Valmir cumpriu sua jornada na terra de uma forma muito honrosa, altruísta, construtiva e boa. Foi um cidadão do mundo.

Foi embora, sem que houvesse tempo para despedidas. E talvez isso esteja concorrendo para que ele fique guardado e vai ficar no lado direito do meu coração, até que nos encontremos amanhã...

 

 

 

 


 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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