NO TEMPO DO TREM DA LESTE

Egnaldo Paixão

 

 

 

Se o tempo tivesse esteira
se o tempo tivesse mãos
se tivesse além de tudo,
outras cotas de emoções,
e se rolar eu pudesse,
ao passado e fizesse
todas as peripécias
de quando a gente não cresce,
queria rever meu pião
girando feito planeta,
fazendo mil piruetas
na palma de minha mão.

Em verso e prosa queria
lembrar os doces gostosos,
que no tempo de eu menino,
a velha doceira fazia.
Doce de leite e de caldas,
doce de umbu em fatias,
Dona Dejanira tinha
a doçura em suas mãos;
no tabuleiro da velha,
que Lourival carregava,
com certeza ali estava,
as doçuras do sertão.

O açude do Jenipapo
de água serena e parda,

era o paraíso dos sapos
e também da meninada.
E ninguém adoecia,
só se fosse de alegria.
À noite ia-se ao cinema,
películas de vários temas
era a única diversão.

Tendo circo, tudo bem,
se não, era mesmo cinema,
todos queriam emoção...

Se o tempo tivesse esteira
se o tempo tivesse mãos
se tivesse além de tudo
outras cotas de emoções,
com certeza eu voltaria,
a rever com alegria
o tempo do Trem da Leste,
de homens cabras da peste,
trancando a feira à facão.
Queixinho, Escurinho e Ananias,
dando trabalho ao Queiróz,
davam trabalho à Nação;

Fosse inverno ou verão...

umas pinguinhas a mais,
davam fogo ao coração,
botando lenha na paz.
Passada, assim, a ressaca,
quando o fogo então baixava,

tanto de vinho e cachaça,
voltava em tudo a razão.
Itiúba, daí só queria,
dar cura a quem lhe pedia,
com o ar puro das serras
e a força da gratidão.

 

 

 

 

 

 

 


 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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