CRIAÇÃO À ANTIGA

Max Brandão Cirne

 

 

 

 

 

 

A idade nos leva a fazer reflexões. Lembro-me sempre da minha infância na querida Itiúba, lugar do meu nascimento. Hoje já velhão, emociono-me com tantas boas recordações. Maior delas é a que diz respeito aos mês “tios” e “tias”.
Não: não se tratava de consanguinidade. Eram meus vizinhos que nós chamávamos de “tios”.
“ Tia Maricota” era aquela que mascava fumo de corda. Todo o dia após o almoço íamos para sua casa. Era casada com “Tio Tonho” velho estafeta dos correios. Não tinha nada que não dividissem conosco. Pobrezinhos, eles não negavam o pouco que tinham. Quem não soubesse podia até pensar que éramos parentes. Não éramos.
Tinha a “tia Cacá”, essa então, era louca pelo Max. Lavorando na roça, ao final do dia trazia-me licurís maduros que os cozinhava e me dava com muito amor. Seu nome de batismo era Josefa. Eu a apelidei, ainda muito criança de “Cacá” exclusividade minha. Seu marido era caçador de pequenos animais como jaguatiricas, coelhos e outros, além de plantar pequenas roças de subsistência.
Sua irmã, “tia Tida”, moça solteira continuou até entregar sua alma ao Criador. Dizia-se que levaria a virgindade para um tal de “São Libório”. Levou-a ao que sabemos. Morreu caducando.
À noite íamos todos nos aboletar na casa onde viviam, a casa do “seo Marinho” e ouvíamos literatura de cordel que era lida por alguém, relatando duelos de príncipes, reinos e princesas, charadas e histórias fabulosas.
Não éramos parentes. Ainda havia o velho “tio Otaviano” ranzinza que só ele mesmo, cabecinha branca que pedia esmolas e ficava danado da vida quando nós moleques, entre eles eu mesmo, cantávamos: “Tio Taviano me dê dez tostões pra comprar de pão”.
O que diferia meus “tios” de ontem dos “tios” de hoje era o profundo respeito que nutriam por nós e nós por eles. Não os chamávamos de tios por deboche ou desrespeito como hoje se faz. Era parte de uma convivência saudável e de uma aceitação responsável e respeitável.
Nossos “tios” cuidavam da gente e nos abençoavam nos tocavam nos cuidavam e éramos amados. Quanta diferença!
Não dávamos “bom dia” aos mais velhos. Se eram pessoas conhecidas, pedíamos “a bênção”; se não, apenas ficávamos calados. Bom dia só se dava aos de igual para igual. Era assim, sim.
É como ainda é bom saber que tive tantos “tios” e “tias” que, portanto marcaram o menino de ontem e ainda emociona velhão de hoje com a mais pura e sagrada recordação.

Obrigado “meus tios” amados! Quanto respeito vocês nos transmitiram e ensinaram para o viver existencial de todos.
Obrigado é pouco. Continuam vivos. Vocês se eternizaram.

 

 

 

 

 

 

 


 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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