BENDITO QUEROSENE

Djalma Lino dos Anjos

 

 

Era domingo de carnaval, a festa mais desejada por nós itiubenses e eu estava convalescendo de uma bronquite braba de mais de 15 dias de cama, assistido por Dr. Manuel (de saudosa memória), um dos grandes médicos que a nossa Itiúba já teve. E para completar o azar, eu estava terminantemente proibido de brincar aquele carnaval, sob pena de ter uma grande recaída e ser muito pior.


Mas, ao escutar os primeiros acordes da Banda 2 de Julho, saí sorrateiramente de casa para apenas ver a saída dos foliões no bloco que fazia voltas pelas principais ruas da cidade e entrava em algumas casas cujos donos abriam as portas e ofereciam bebidas e tira-gostos.

Eu estava tão fraco, que toda vez que me levantava, ficava tonto. Fiquei na sombra da grande árvore que existia em frente ao depósito do Sr. Valadares, antigo salão do Guiga (ambos de saudosa memória).

Comigo estava também, entre outros, o grande "Vizinho" (apelido do nosso querido Valmir Simões), que não perdia um único lance engraçado dos foliões para salpicar os seus comentários altamente espirituosos, fazendo com que todos rissem à vontade.

Foi quando de repente passaram pulando no bloco umas mocinhas de Salvador que estavam hospedadas na casa do Dr. Manuel e começaram a fazer "gracinhas". Pronto! Foi a gota d'água. Empolguei-me e caí na folia, meio sem jeito, devagarzinho e quando o bloco chegou à casa do Sr. Pedro Henrique eu já estava apoiado num ombro amigo e já nem lembrava mais que estava saindo de uma doença braba.

De repente, já altamente empolgado, avistei em cima de uma geladeira, uma garrafa de vodka Orloff cheinha. Não resisti, retirei a tampa e, ao som ensurdecedor da banda dentro de casa, levei direto à boca, pelo gargalo. Só escutei um grito louco de uma mulher da casa: paaaaaaaare, isso é gááááááááááássss (gás), como era chamado o querosene. Eu já havia tomado pelo menos dois goles...

Quero dizer apenas que a partir daquele momento, entrei de cabeça no carnaval itiubense, brinquei os três dias, bebi tudo o que "não tinha" direito, vi o trem de passageiros passar no dia seguinte por trás do rinque da 2 de Julho e no final estava apaixonado e completamente curado. Até hoje, nunca tive sequer uma tosse. Graças ao Dr. Manuel, claro. O querosene é apenas para recordar como era empolgante o nosso carnaval.

 

SOBRE OS CARNAVAIS DE ITIÚBA LEIA TAMBÉM:
- BEBIDAS PARA OS MÚSICOS (pág.73) Fernando P. de Carvalho
- LEMBRANÇAS DOS CARNAVAIS (pág.107) - Valmir Simões
- MONOPÓLIO QUEBRADO (pág. 87) - Ivan de Carvalho
- O MASCARADO MISTERIOSO (pág.15) - Hugo Pinto de Carvalho
- O DESCONHECIDO (pág.30) - Djalma dos Anjos
- O TEIA (pág.42) - Fernando P. de Carvalho

- O CAVALO BRANCO DO CARNAVAL(pág72) - Hugo Pinto de Carvalho

- A CHUVA DE PEDRAS (pag. 01) - Fernando P. de Carvalho

- CARETA MALAGUETA (pág.360) - Valmir Simões

- A FANTASIA DE CAÇADOR (pág.380) - Hugo Pinto de Carvalho

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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