UMA LINDA LEMBRANÇA

Ivan de Carvalho

 

 

Depois que minha família mudou-se para Salvador para que eu e meus irmãos pudéssemos continuar os estudos, eu sempre passava uma semana por ano em Itiúba – chegava na sexta ou no sábado, brincava o carnaval e ficava esticando a partida até a outra sexta ou sábado.


Costumava ficar hospedado na pensão de uma parenta, Iaiá, bem junto à sede da Sociedade Filarmônica União 2 de Julho. No início do baile noturno do domingo de carnaval, imediatamente após entrar no clube, descobri algo equivalente ao que o compositor viu na Baixa dos Sapateiros. Nesta, “a morena mais frajola da Bahia”. No clube, “a morena mais frajola de Itiúba”. Pelo menos, aos meus olhos, mas suponho que a muitos outros.

Então, fui rápido. As coisas, naqueles tempos, andavam mais devagar que hoje, mas em poucos minutos éramos namorados. Vim logo a saber que morava na vizinhança. O pai era uma fera. Nem cheguei a conhecer. A mãe era a sogra que todo mundo sonha ter.

Namoramos naquela semana e na semana do carnaval seguinte. Houve até, no reencontro, um hilariante episódio, que não dá para contar, de um beijo na pessoa errada. Mas no terceiro carnaval ela estava fora de combate – havia casado. Como tantas, fora morar em outra cidade, estava em Itiúba de visita.

Eu soube logo. No bloco que saía à rua no fim da manhã, no sobrado de Belarmino invadido pelos foliões, casualmente nos encontramos.

– Ivan, você tem um cigarro?

– Tenho – respondi, acendendo e entregando o assassino branco. – Como vai você? Está livre ou fiscalizada?

– Fiscalizada...– disse. Acho que identifiquei um discreto tom de tristeza na voz. Mas pode ter sido impressão minha.

Foi a última vez que ouvi uma palavra sua, aquela voz, doce como mel, dizendo algo amargo como fel.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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